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Guardiãs do mar - Salvar o ambiente, preservar empregos.

Pradarias Marinhas, Mulheres Pescadoras, Oceano Sustentável

O problema que acende esta ideia é a degradação e destruição de um habitat berçário da biodiversidade marinha, as pradarias marinhas, e o seu impacto no declínio da população de golfinhos do Sado e no desemprego e desvalorização social e cultural das mulheres pescadoras. O mau estado deste habitat leva à diminuição da vida marinha e por isso, à escassez das presas dos golfinhos e do pescado das pescadoras. A resposta que apresentamos para este problema é a protecção das pradarias marinhas do estuário do Sado envolvendo as pescadoras 1) em actividades de sensibilização do público, como forma alternativa ao desemprego e à pesca, e 2) na monitorização e protecção directa deste habitat, com benefícios para a sua actividade pesqueira e para a disponibilidade de alimento dos golfinhos. Esta ideia procura pois resolver um problema de sustentabilidade ambiental com impactos na valorização e inclusão social das pescadoras e no diálogo cultural promovendo a cidadania activa em Portugal e na diáspora portuguesa. Para que compreendam este problema vamos levá-los a mergulhar e conhecer as pradarias marinhas e de que forma estas impactam a nossa vida e a vida no nosso planeta e em particular, os golfinhos e as pescadoras do Sado. As pradarias marinhas são um habitat marinho constituído por plantas aquáticas rizomatosas (parecidas ao lírio) que vivem em águas costeiras (até a uma profundidade de 30m). Um artigo publicado na revista científica Nature (1) classifica-as, como o terceiro ecossistema do nosso planeta com mais valor! Avaliado conservativamente em 17 000 euros por hectare por ano, o seu valor traduz-se em serviços que todos beneficiamos, como a produção de oxigénio e o armazenamento de carbono, superior a DUAS vezes ao de uma típica floresta terrestre; a protecção costeira e a depuração das águas, pela tomada de nutrientes; e sobretudo por ser um habitat que providencia abrigo, alimento e berço a uma gigantesca diversidade de vida marinha, incluindo espécies de peixes, crustáceos e cefalópodes que nós comemos, portanto com valor comercial e que são alimento para os golfinhos. Devido à sua grande importância, as pradarias marinhas estão protegidas na União Europeia através da Directiva Habitats, e constituem uma das esperanças para a restauração de um Oceano saudável (2) No entanto, um terço das pradarias marinhas do nosso planeta já desapareceram e encontram-se em declínio a uma taxa de dois campos de futebol por hora (3)! Segundo um estudo realizado por investigadores da universidade do Algarve (4), as pradarias marinhas desapareceram drasticamente em Portugal ao longo dos últimos 20 anos. Um dos locais mais maravilhosos onde se observou um declínio acentuado, foi na costa da Arrábida, na região do estuário do Sado: em 1946 existia um prado marinho a perder de vista, com uma área aproximada a 140 campos de futebol (70 ha) mas em 2003, restavam uns escassos 70 metros quadrados, a área de um pequeno apartamento (5) . As pradarias marinhas desaparecem principalmente devido ao uso insustentável do Oceano, o que também acontece no estuário do Sado. A colocação de âncoras e amarrações das embarcações sobre as pradarias e apanha de pescado com técnicas de pesca invasivas, como o arrasto de fundo, a ganchorra, o ancinho de mão e a apanha com escafandro autónomo partem as folhas e os rizomas. As dragagens para manter os canais de navegação do porto de Setúbal assoreiam as pradarias. A poluição da água devido aos esgotos urbanos, industriais e dos estaleiros navais, e os químicos agrícolas levam á eutrofização ou impedem o crescimento das plantas, como o caso dos herbicidas utilizados nos arrozais na bacia do rio Sado (6). O benefício directo das pradarias marinhas para a população de golfinhos e para a comunidade piscatória do estuário do Sado, é a abundância de alimento e pescado, respectivamente. Assim, o decréscimo acentuado deste habitat levou à escassez da vida marinha contribuindo para o declínio daquela população de golfinhos e para o desemprego e desvalorização da comunidade piscatória. A população de golfinhos (da espécie roaz Tursiops truncatus) do estuário do Sado é uma das poucas populações residentes que vivem em estuários na Europa, um símbolo de vida selvagem à porta de casa e por isso, altamente susceptível aos impactos antropogénicos. Esta população tornou-se muito pequena – conta actualmente com apenas 27 animais. Para estes golfinhos, as pradarias marinhas são autênticos refeitórios. Por isso, uma das acções prioritárias para inverter o declínio da população é a melhoria do estado deste habitat (7). Também no estuário do Sado a comunidade piscatória tem características únicas, em que homem e mulher compartilham a lida da pesca a bordo e fazem-se ao mar. Estas mulheres pescadoras têm uma experiência e sabedoria de vida únicas e constituem uma das poucas existentes no nosso país e na Europa (8) . Na margem Norte do estuário, no conselho de Setúbal, restam apenas 10 mulheres em idade activa. Apenas uma continua a pescar. Na margem Sul, em Tróia, nas povoações da Carrasqueira e da Comporta, existem cerca de 35 mulheres pescadoras activas. O património cultural e sabedoria destas pescadoras, de mulheres que nasceram e deram à luz no mar, com ritmos regidos pelas luas e pelas marés, com uma força de braços e rigidez no corpo para enfrentar ventos e tempestades, encontra-se em perigo de se perder, por não haver seguidoras. Incentivar a continuidade da pesca não é necessariamente a solução sustentável já que, de um modo geral, a maior parte dos stocks pesqueiros encontram-se explorados na totalidade ou estão sobreexplorados (9). Por isso, as alternativas à pesca que valorizam as comunidades piscatórias são incentivadas pela politica de pescas da União Europeia (10). A nossa ideia cria novas profissões para as pescadoras relacionadas com a protecção e sensibilização ambiental. Trata-se de criar oportunidades alternativas ao desemprego e complementares à pesca que se baseiam na experiência de vida das pescadoras para proteger as pradarias marinhas. Desta forma, as pescadoras são valorizadas, assumindo um papel de liderança na cidadania activa para a sustentabilidade ambiental, protegendo um bem que lhes é precioso e que é de todos: o Oceano. A médio prazo, o melhor estado das pradarias marinhas permitirá melhorar as condições de vida da população de golfinhos e das pescadoras. (1) Robert Costanza, Ralph d'Arge, Rudolf de Groot, Stephen Farber, Monica Grasso, Bruce Hannon, Karin Limburg, Shahid Naeem, Robert V. O'Neill, Jose Paruelo, Robert G. Raskin, Paul Sutton & Marjan van den Belt. 1997. The value of the world's ecosystem services and natural capital. Nature 387, 253-260 (2) WWF – World Wildlife Fund. 2015. Marine Protected Áreas: Smart Investments in Ocean Health. Relatório. (3) www.seagrass.org (4) Cunha, A. J.F. Assis. E.A. Serrão. Seagrasses in Portugal: a most endangered marine habitat. 2003. Aquatic Botany. 104. 193-203 (5) Silva, J. (2003-2004). “Plano de recuperação da população de Fanerogâmicas do Parque Marinho da Arrábida” (6) Cunha, A.H. e E.A.Serrão. 2011. Tools for seagrss conservation and management in Portugal. Ecologi@. 3. 22-24 (7) Gaspar, R. 2003. Status of the resident bottlenose dolphin population in the Sado estuary: past, present and future. Tese de doutoramento. Universidade de St. Andrews. (8) AKTEA: European Network Women in fisheries and aquaculture. www.fiswomen.org e Estrela do Mar – Rede Portuguesa de Mulheres da Pesca (http://www.mutuapescadores.pt/?p=519). (9) WWF - World Wildlife Fund e ZSL – Zoological Society of London. 2015. Living Blue Planet Report: Species, habitats and well-being. Relatório. (10)FARNET – Rede Europeia das Zonas de Pesca https://webgate.ec.europa.eu/fpfis/cms/farnet/pt-pt/node

Raquel Gaspar

Visionário
Setúbal, Portugal

Rosa Ferreira

Facilitador
Setubal, Portugal

Claudia Martins

Facilitador
Alcácer do Sal, Portugal

Sofia Mendes Jorge

Facilitador
Barcelona, Espanha

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